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Paraíba Poética

Tavinho Teixeira

Capa do livro DEUS SOMOS NÓS, de Tavinho Teixeira

Tavinho Teixeira nasceu em João Pessoa-PB, em 13 de junho de 1.965. Fez os cursos de Direito, História e psicologia (não concluindo nenhum deles). Formado em Interpretação Teatral na Cal - Centro de Artes de Laranjeiras (Rio de Janeiro-RJ), trabalhou como ator com alguns grupos de teatro, e no cinema tem participado de médias e curtas-metragens.

fiado

deus prá mim não tem mistério,

nem metáfora,

nem metafísica.

deus prá mim é o criador -

foi ele quem criou a dor;

só não é ele quem carrega o andor.

muito pelo contrário,

ele é sempre carregado.

deus prá mim é um vibrador.

é o movimento vibratório.

é um acidente de laboratório.

é a vibração da motocicleta,

é o corpinho do atleta.

deus prá mim é a vaga pro carro na garagem,

é a margem da contramão,

é a anti-razão da existência,

é a essência do nada.

deus prá mim é a vã coincidência

é a incidência do fato.

é o coletivo da santa ceia

na inconsciência do ato de pendurá-la

nas paredes das salas.

deus prá mim é o vazio da mala.

é o fogo fátuo.

é o vácuo do trem,

o fiado no armazém.

deus prá mim é mais além.

é o roxo do caixão barato,

é o azul do caixão do anjinho,

ou o roche na caixinha de lexotan.

deus prá mim não é cristo nem satã,

deus prá mim é o meu bichinho de pelúcia.

deus prá mim é o arco-íris de néon

na torre da paulista.

é o aconchego na blitz da polícia.

é a milícia celeste no ritz.

deus prá mim é paiva prá jobí.

é gala prá dali.

é sabonete prá freira.

é a puta bexiguenta em dia de feira.

ou a bicha que aguenta

muito mais que 20 cm de solidão.

deus prá mim é o que não poderia ter sido

no amor um fracasso.

ou o que poderia ter sido

paloma sem picasso.

deus prá mim é o guernica

no up dowm da cabeça da minha pica.

deus prá mim foi meigalinha.

deu prá mim ontem sem camisinha

lá no limbo motel.

acendeu um cigarro e disse:

foi bom prá dedéu.

deus prá mim é a sensação da morfina na veia,

a endorfina espalhada na rima.

é a cilada da cocaína barata.

é a heroína dessa trama babaca.

deus prá mim é banana pra macaco.

cão pra gatilho.

whiskas pra gato.

deus prá mim tá perdoado.

ele não sabe o que faz.

deus prá mim é poeta.

 

São Paulo, maio/1998

 

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