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Paraíba Poética

Severino Sertanejo

Atuando com versatilidade em vários campos - pesquisa histórica e Direito, poesia erudita e popular, magistério superior e música, folclore e direito financeiro - o imortal Luis Nunes Alves, da Academia Paraibana de Letras, é um dos mais conhecidos e acatados intelectuais paraibanos. Nasceu em Água Branca, PB, em 1.934, filho de Antônio Alves da Silva e Marta Nunes de Souza. Ainda hoje, pelo telurismo que preside toda sua vida pessoal, intelectual e literária, faz questão de votar na cidade natal.

Luis Nunes Alves é Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba e professor da Universidade Federal, integrando, ainda, além da Academia Paraibana de Letras, entidades como o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, o Colégio Brasileiro de Faculdades de Direito, o Instituto PAraibano de Genealogia e Heráldica, a Fundação Instituto Ruy Barbosa e a Comissão Paraibana de Folclore.

Capa do livro COISAS DA MINHA SALA,

lançado recentemente em João Pessoa-PB

 

ROUBO EM CASA DE POBRE

Não entre na minha casa,

Sem a minha permissão.

Se entrar, eu digo a Cosme

Pra dizer a Damião

 

Os cacarecos que tenho

São todos de estimação:

Panela mais cinco pratos

Um pandeiro, um violão.

 

Na panela, você sabe,

Ela cozinha o feijão.

Dos pratos a gente precisa

Nas horas da refeição

 

E o que será de sambista

Sem pandeiro e violão?

 

EU SOU DA PARAÍBA

Eu não sou do Maranhão,

Mas gostaria de ser,

Para que a minha língua

Melhor pudesse aprender

Reviver Gonçalves Dias,

Como forma de viver.

 

Eu não sou do Amazonas,

Mas gostaria de ser,

Para ver o Solimões

Ao Negro não atender

Naquele encontro de águas,

Se pudesse, ao entardecer.

 

Também não sou do Pará,

Mas gostaria de ser,

Só prá ver Serzedelo

A Floriano dizer:

Eu saio se o Tribunal

Mais poder não puder ter.

 

Eu não sou do Ceará,

Mas gostaria de ser,

PAra tomar Iracema

De Martim e me esconder

Na Serra da Ibiapaba,

Lugar bom de se viver.

 

Eu não sou de Pernambuco,

Mas gostaria de ser,

Pra relembrar Frei Caneca

No momento de atender

Ao chamamento da forca

Pelo Brasil que quis ter.

 

Também não sou de Sergipe,

Mas gostaria de ser,

Para, inspirado em Tobias,

Bons versos poder fazer

Tal qual ele e Castro Alves

Quando estavam a concorrer.

 

Do Rio, também, não sou,

Mas gostaria de ser,

Para, junto ao Corcovado,

A minha prece fazer

Por um Rio mais humano,

Tal como merece ser.

 

Também não sou de Brasília,

Mas gostaria de ser,

Pra dizer que Juscelino

Ninguém irá esquecer,

Porque, sem ele, Brasilia

Inda estava pra nascer.

 

Também não sou de Goiás,

MAs gostaria de ser,

Pra ver Cora Coralinha

Aqueles doces fazer

E, em cima dos seus versos,

Muitas lições aprender.

 

Eu não sou de Mato Grosso,

Mas gostaria de ser,

Do Norte, depois, do Sul

Para bem compreender

O que é o Pantanal

E sobre ele escrever.

 

Também não sou de São Paulo,

Mas gostaria de ser,

Para dizer aos patrões

Que vale a pena perder,

Se quem ganha é o operário

Para, assim, sobreviver.

 

Eu não sou do Paraná,

Mas gostaria de ser,

Porque da terra da soja

É bem melhor prá dizer

Que com a reforma agrária

Este país vai crescer.

 

Eu não sou do Rio Grande,

Mas gostaria de ser,

Pra junto ao povo gaúcho

Uns ideais reviver,

Isso, às margens da Guaíba,

Se, possível, ao entardecer.

 

Eu sou lá da Paraíba,

A terra do cantador,

Do folhetista, na feira,

E também do embolador,

Ah! se eu pudesse, entre eles,

Ser, também, um trovador.

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