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Paraíba Poética
Ronaldo Cunha Lima

Ronaldo Cunha
Lima - Ex- Prefeitode Campina Grande-PB; Ex-Governador do Estado da Paraíba;
Membro do Pen Clube do Brasil; Membro da Academia Paraibana de Letras; Senador
da República.
"Ronaldo Cunha Lima é um poeta por essência da paixão medida. Ele nos
traz, em sua poesia, uma visão do amor se alongando em canto libertário"
EDILBERTO COUTINHO
" Ronaldo Cunha Lima realiza uma obraque transcende ao circunstancial
para inserir-se, definitivamente, no corpus da melhor literatura brasileira.
Livre pensador, é um guia experimentado, calejado nas lides desta Terra. É
uma generosa fonte de hipóteses de trabalho para o mundo de pendências que
o homem moderno acumulou e para as quais desesperadamente busca soluções.
É uma baliza, um farol nesse instante cósmico da curva da evolução, onde se
acentuam paradoxos. É, enfim, daquelas figuras humanas que um coração verdadeiramente
desperto só tem a agradecer aos deuses por ter um dia conhecido". VALMIR
CAMPELO - Senador
CANSADO
DE SOFRER DO MAL DE AMOR
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Cansado de sofrer do
mal de amor procurei proteger meu coração e comecei a grande construção da minha fortaleza interior. Fiz vigas de concreto contra a dor, revesti as paredes de razão, portas, janelas, piso, elevador, tudo impermeável à emoção. Como não tem no mundo quem não falhe, esqueci, entretanto, de um detalhe, e meu trabalho não ficou completo. Meu coração, em paz, adormecido, acordou, de repente, com um ruído: Era a saudade entrando pelo teto. |
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Na quietude d'aquela
noite densa, reclamei numa saudade a presença do meu Pai, que há muito já morreu !... Sorimbático e só, fiquei na sala, sem ouvir de ninguém uma só fala: todos dormiam entregues a Morfeu. Continuei sozinho na vigília, contemplando a placidez da mobília, num silêncio quase que perfeito; quebrando apenas com o gemer da rede, as pancadas do relógio na parede e o pulsar do coração dentro do peito. De repente, coberta com um véu, uma nuvem descia lá do céu, na sala onde eu estava, cai... era algo de espanto realmente dissipa-se a nuvem lentamente e vai surgindo a imagem do meu pai. Boa noite, meu filho ! E se assusta ? Tenha mais um pouco de calma, porque custa novamente voltar por este trilho; Eu rompi os umbrais da eternidade para, em braços de amor e de saudade, conversar com você, querido filho !... Tenho assistido todos os seus passos, suas lutas, vitórias e fracassos, em ânsias que não posso mais contê-las: eu lhe assisto, meu filho, todo dia, em suas vitórias choro de alegria e as lágrimas transformam-se em estrelas. Tenho visto também seus sofrimentos suas angústias, dores e tormentos e esperanças que foram já frustradas; tenho visto, meu filho, da eternidade, o desencanto de sua mocidade e o pranto de suas madrugadas. Compreendo, também, sua tristeza ante a ânsia que traz na alma presa de adejar cortando monte e serra; sua ânsia de voar, cantando notas, misturar seu vôo ao das gaivotas, que beijam os céus sem deixar a terra. Mas, ao lado dos atos de grandeza, você me causa, filho, também tristeza, em desgosto minh'alma já flutua: Ontem, porque não estava pronta a ceia, pra sua mãe você fez cara feia, bateu a porta e foi jantar na rua. Você não soube, meu filho, e no entanto, ela caiu prostrada em um pranto soluçando seu íntimo desgosto. Nunca mais, meu filho, isto faça, pois para o filho não há maior desgraça que em sua mãe deixar rugas no rosto. Nunca mais a ofenda, nem de leve !... O seu amor a ele aos céus eleve e escute sempre, sempre o que ela diz. Peça a Deus para durar sua existência e, se assim fizer de consciência você, na vida, tem que ser feliz. Conduza-se na vida co altivez, fazendo da probidade, da honradez, para você o seu forte brasão; aprofunde-se meu filho, no estudo, fazendo da justiça o seu escudo, amando o povo como ao seu irmão. Continue no trabalho a que se entrega sem temer obstáculo nem refrega, pois com a vitória sempre você vai, e se assim fizer, querido filho, sua vida há de ser toda de brilho, e honrará o nome de seu pai. E nisso a nuvem comoventemente, aos poucos se junta novamente, envolvendo meu pai num denso véu; e num olhar meigo e bem sereno, dirige para mim um triste aceno e vai de novo subindo para o céu ! E eu fiquei chorando de saudade, alimentando aquela ansiedade, sem poder abrandá-la. Que castigo ! Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia, esperando que meu pai rompa distância, pra vir de novo conversar comigo. |
É
BEM MELHOR A GENTE NÃO SE VER
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É bem melhor a gente
não se ver. A distância elimina cicatrizes do amor que morre, mas que tem raízes, que com o tempo também irão morrer. O melhor que se faz é entender que distantes seremos mais felizes. Eu nunca saberei o que tu dizes e o que eu digo jamais irás saber. Bem mais tarde - quem sabe - eu já velhinho, a gente ainda se encontre no caminho coberto de lembranças que guardei, e tu possas, sem mágoas, sem desgosto, presentear-me um beijo no meu rosto, dizendo bem baixinho - "JÁ TE AMEI". |
DE
SUAS MÃOS GUARDEI AQUELE ACENO
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De suas mãos guardei
aquele aceno e do gesto tirei muitas lições. A verdade de todos os silêncios e a mentira de muitas confissões. Das frases eu guardei umas palavras, das palavras guardei todos os sons. Um eco renovado aos meus ouvidos, para lembrança dos momentos bons. Do seu rosto guardei o seu sorriso e do riso guardei as ironias, mas da boca guardei os beijos seus. Dos seus olhos guardei o seu olhar, inseguro, indeciso, a duvidar do próprio instante em que me disse adeus. |
HAVEREI
DE TE AMAR A VIDA INTEIRA
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Haverei de te amar a
vida inteira Mesmo unilateral o bem querer, é forma diferente de se ter, sem nada se exigir da companheira. Haverei de te amar a vida inteira, (não precisa aceitar, basta saber), pois amor que faz bem e dá prazer a gente vive de qualquer maneira. Eu viverei de sonhos e utopias, realizando as minhas fantasias, tornando cada qual mais verdadeira. Eu te farei presente em meus instantes. Supondo que seremos sempre amantes, haverei de te amar a vida inteira. |
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Pode até meu amor já
ter morrido. Podes dizer que teu amor morreu. Só não pode morrer, nem faz sentido, aquele amor que nosso amor viveu. |
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Você me traz medo, você me faz falta. A diferença entre o medo e a falta é que o medo você sabe quando tem, e na falta você sente que não tem. A falta, com o medo, sobressalta. Entre o medo que você me traz e a falta que você me faz, você é o medo que me falta. |
NÃO
MALDIGO OS VERSOS QUE LHE FIZ
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Não maldigo os versos
que lhe fiz, embora não devesse tê-los feito. São versos que nasceram do meu peito, mas frutos de um amor muito infeliz. São versos que guardam o que não quis guardar daquele nosso amor desfeito. Relendo-os sofro, e sofrendo aceito o que o destino fez como juiz. Não os maldigo, não. Não os maldigo. Vou guardá-los em mim como castigo, para no amor eu escolher direito. Só porque nesse amor não fui feliz, não maldigo os versos que lhe fiz, embora não devêsse tê-los feito. |
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Não importa que da despedida não fique nada. Bastam as outras coisas que já vão ficar: Do muito que nos vimos, pelo menos um olhar há de ficar. De tudo o que dissemos, pelo menos uma palavra vai ficar. Do quanto nós fizemos, pelo menos um gesto vai ficar. Do quanto nós fizemos, pelo menos um pouco de amor há de ficar. E pelo que vimos, pelo que dissemos, pelo que fizemos e pelo que amamos, pelo menos em lembrança um no outro vai ficar. |
QUERIA
TE ODIAR, MAS NÃO CONSIGO
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Queria te odiar, mas
não consigo. (O ódio que chega a mim vai logo embora) Entre o amor de ontem e a dor de agora, mais forte é o sentimento mais antigo. Prefiro relembrar e ter comigo as emoções que já vivi outrora. E quero é que o amor a toda hora encontre na minh'a alma o seu abrigo. Odiar-te porque ? Por que negaste uma história de amor que tu jurasse eterna na constância e no prazer ? Em nome do perdão que tudo faz, e por querer, também, viver em paz, em vez de te odiar, vou te esquecer. |
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