O Jegão

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Paraíba Poética

Hilderberto Barbosa Filho

IMAGENS DE PALAVRA

Buscar a palavra
nas lições da vida.
E na morte prematura,
buscar a palavra,
embrião perdido
por entre os olhos
e os lábios sepultados.

Reter a palavra,
essência tarda no cume
do poema, perfeito
paraíso de degredos...

Retê-la no fremir
do verso, e no fremir
do verso, moldá-la:
rigorosa linha entre
as manhãs e as noites
do meu tédio.

Guardar a palavra:
gesto último de quem
vazou o texto e não
beijou neblinas...
nem formas acabadas.

Perdê-la no tempo
vazio e recomposto,
único janeiro dos anos
estivais.

Plantar a palavra
no verão e no inverno,
alimento que povoa
o medo nos desertos
do papel

e entre sílabas de dor
ganir o amor contido,
rio de luzes e sal
de agosto, dezembros
maculados...

Depará-la, fendida,
na geometria da paixão,
cálculos infindos
para uma imagem
derradeira.

Buscar a palavra
esquecida na gaveta
e molhada na saliva
do silêncio:
único roteiro dos meus
sonhos irreais.

Liame do meu mundo
com o teu mundo

(itinerário devastado) uma planície que se fez
outono...


O LIVRO DA AGONIA I

Nada sei dos homens nem dos deuses,
seus truques, sonhos, armadilhas e destinos,
nem nada sei da vida, cardume que se reinventa.
Nem nada sei do que na guerra existe,
do que na morte existe, do que na cor existe.
Sei que os homens sofrem porque lembram.
Sei que a cada manhã o tempo passa,
repartindo os filhos, as estórias, as mulheres
e que à noite restará um verso sem luz.
Nada sei, nada sei, nada sei,
mas quero guardar a alegria de cantar o amor.
Nada, nada, nada como o amor que vem,
invadindo as cidades, as catedrais, os ermos,
em louvor do grão da vida.
O resto é silêncio como disse Shakespeare
e morrer também não é remédio.
Os livros não dizem tudo,
nem os astros nem as crenças.
As lições de partir
ficam aquém das estações e dos cais.
Só além do mar e dos teus olhos
eu vejo a ilha dos amores,
seus arrecifes de espinhas, seu gosto de sono,
a ressaca, o nunca mais.
Nada sei que me diga do definitivo pouso,
se há o ponto de apoio que procurava Konoválov,
se é possível o dantesco paraíso no meio do caminho,
ou tudo é selva escura, solidão, inferno?
Nada sei que me diga das estrelas,
nem do amor que tu me tinhas, seus topázios,
seus cabelos de silêncio.
Sei que os homens sofrem porque lembram.
Sei que o amor, o amor, o amor só é possível,
reinventado...
E nada sei dos homens nem dos deuses,
se há o verso maior, o poeta maior, o amor maior,
se nesses dias brancos algum dia eu serei feliz.


BLUE SÓ PARA VOCÊ I

meu coração tem mil corações solitários
meu coração tem mil corações solitários
e eu fui escrava na Carolina do Sul

não enterrem meu corpo no Mississipi
não enterrem meu corpo no Mississipi
este corpo negro sob o céu azul

estou bêbada num bar muito triste
estou bêbada num bar muito triste
Bessie Smith Billie Holiday blues

 

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