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Paraíba Poética

Ernani Sátyro

  (* 1911 + 1986)  

 

A HORA DA MORTE  
 

Pavor. Mas não é da morte - é da Hora da Morte. 
É por isso que te peço, ó Morte, 
Que venhas quando quiseres, 
De noite ou de dia, 
Mas não me deixes nunca pressentir a Chegada. 
O medo é da Hora. 
Não é do teu mistério, Morte, 
Que o mistério da vida é maior. 
O que eu temo é a Hora - o ar das pessoas na Hora da Morte. 
Tu primeiro te apoderas das testemunhas, 
Que aceitam e começam a ser cúmplices. 
Tu desanimas e abates os que assistem 
Para então desferires o golpe. 
Vem, antes ou depois. 
Na Hora da Morte, não !  
 

AMOR

Amor. 
Sim, é amor. 
Quando você tiver dúvida, 
Pode estar certo de que é amor. 
A paixão é diferente 
Porque se sabe logo. 
Mas o que importa não é saber logo. 
Para que saber as coisas antes ? 
Em matéria de amor não é preciso saber de mais. 
É melhor saber de menos 
Contanto que não seja menos demais.  
 

 

A ROSA

Mandei-lhe uma rosa 
Dizendo que ela levava 
Meu coração 
E que só pedia  
Retribuição. 
Então ela mandou-me também uma rosa. 
Mas fui ver, 
Que decepção ! 
Não rimava: 
Era a mesma.  
 

 

COMPANHEIRA A Antonietta

ERNANI SÁTYRO

Aos ventos entreguei as minhas ânsias; 
Os ventos passaram, as ânsias ficaram. 
Aos mares entreguei as esperanças, 
Que pelo menos nas cores são iguais; 
As esperanças os mares as tragaram. 
Aos pássaros entreguei meu canto: 
Eles cantaram, mas não meu canto, 
E sim o deles. 
Aos filhos confiei os compromissos:  
Eles disseram que já tinham os seus. 
Falei aos netos: 
Eles responderam 
Que bastava o que os pais já lhes diziam. 
Falei a meus amigos: 
Tornaram-se inimigos. 
Falei ao mundo: 
O mundo se fechou. 
Ficou só a companheira, que me disse: 
- Vamos, nós ainda temos força !  
 

  CUMPLICIDADE

( A ERNANINHO, MEU FILHO MORTO)

Não quero contribuir com o meu desânimo para a morte do meu filho. 
Não quero admitir que o seu caso seja perdido, 
Porque aceitar é uma forma de colaborar. 
Não, eu não quero ajudar a morte. 
Que a minha fraqueza não venha como uma cumplicidade. 
Que o meu pequeno doente, tão pequeno e tão grande 
na luta desigual, não veja em mim um gesto 
de conformação com o trabalho da Assassina. 
Ela pode vir, 
Mas que os olhos ternos de meu filho não a leiam 
nos meus fracos olhos.  
 

O CANTO DO RETARDATÁRIO
 

Pouco importa que o canto seja tardio. 
Se não tinha amadurecido, inda não era canto. 
A idade do poeta, se mede pelo amadurecimento do canto. 
Cantar não é desejar a glória, 
E simplesmente cantar. 
A gente nasce para viver,  
o canto rompe para vibrar. 
O resto é com quem ouve, 
O poeta não tem nada com isso. 
Já houve um santo que falou às aves. 
Mas eu sou ave, canto para as árvores. 
- Árvores, ouvi-me ! 


MÃE

A meu irmão Firmino

Este é o mais difícil dos poemas. 
E no entanto como ela era simples. 
Tão simples e natural 
Que até parecia modelada, e não nascida. 
A sua impaciência era a pressa de servir. 
Os seus castigos eram uma de suas obediências a Deus. 
Quantas vezes, ao castigar, sorria. 
O maior elogio que te faço, ó Mãe, 
É dizer que tuas fraquezas eram mais fortes que minhas forças. 
Teus filhos foram muitos, mas são poucos. 
Tu os viste partir de um em um, 
Pequenos ou grandes. 
Tantas foram as mortes plantadas no teu coração 
E tamanha era a tua resignação diante de Deus, 
Que deste morada à Morte em tua casa. 
Trataste-a tão bem que ela se compadeceu de ti 
E te levou antes de desfolhar as duas últimas pétalas. 
Só não se compadeceu a Morte, ao te levar, 
Foi das duas pétalas 
Que ficaram  
A sangrar. 

 

PAI

Tu foste o equilibrio e a mansidão. 
A sabedoria sem o saber. 
O perdão antecipado. 
A paciência antes e depois. 
A compreensão dos incompreendidos 
E até dos incompreendíveis. 
A timidez com coragem. 
Dominando tua gente na idade do trabuco, 
não sabias manejar um canivete. 
Mas teus adversários temiam teu sorriso irônico, 
Tuas astúcias, 
Teu poder de convencer o Governo e encabular a oposição. 
Tua arte de ganhar eleições, com eleitores de verdade, ou não. 
Tua dialética de rábula que mal conhecia a letra dos Códigos, 
Mas sabia fazer a multiplicação das letras. 
Nunca nos castigastes com as mãos, 
Mas nos comandavas com teu olhar sereno, 
As vezes disfarçado em indiferença, 
As vezes endurecido em energia. 
A tua lição ficou. 
Ainda hoje a cidade de governastes carrega o teu nome na linguagem do povo: 
"Patinhos-de-Major-Miguel". 
Não fostes um santo, 
Mas quantos santos invejariam tua serenidade, 
Tu eras tão perguntador, 
Que acho que lá no céu 
Tens coragem de fazer perguntas 
Até a Nossenhor. 

 

SABER MORRER

Ninguém sabe morrer. 
A morte é que sabe matar. 
Ela mata de qualquer jeito, 
Com lei ou sem lei, 
Porque a lei é ela. 
Se nós soubessemos morrer 
Também sabíamos não morrer 
E então não morreriamos. 
 

 

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