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Paraíba Poética

Bella Santiago

 

PAISAGENS DO CORAÇÃO

Se me calo, é de temor,
é de tremor, borboleta
debatendo-me em segredos
escondo o mel do desejo
- beija-flor.

Mas se acaso te calas,
emudeço de tristeza,
navego na incerteza,
perco rumo desgostosa
-gaivota.

Se me calo e então falas,
sorrio boba da vida,
sou melosa, embevecida
de ti, do mundo, de mim
-colibri.

Mas se tu és desamor
escureço como a tarde,
como mar na tempestade,
sou rota, murcha, morta
-gaivota.

A vida que quero levar
menino
tem terra, tem mato, tem mar.

O amor que quero provar
menino
tem carne, paixão, tem roçar.

O corpo que quero amar
menino
tem vida, morneza, fé.

O homem que quero ter
menino
moreno, magoado -é você!



POEMAS DO DESMEDIDO AMOR

Bella Santiago

 
Não me servem:
alusões, suspiros, cenas,
insinuações, elipses, poemas,
não me servem silêncios nem olhares,
tão pouco queixas, tão pouco penas.

Preciso dos teus lábios
inquietos
a proferir claro amor por mim.

Profano amor,
sê obsceno!

O amor do meu amor
se oculta tanto,
em silenciosos contrapontos
entre um e outro beijo;

o querer do meu amor
se faz custoso
e deixa no seu rastro
duvidoso
tumultos no meu peito...

se ao menos pudesse
cravar um punhal no teu sexo
senti-lo entrar na carne,
no âmago
no secreto...

se ao menos pudesse
prender teu olhar incerto,
penetrar devagar teus segredos,
teus apegos,
teus afetos...

se ao menos teu riso brilhasse
na noite de luz carente
e a alvura dos teus dentes
clareasse o infinito,
o universo,
estes versos...

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