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Paraíba Poética
Augusto dos Anjos
(1884 - 1914)
"Não houve nunca na literatura brasileira expressão
mais viva do gosto de introspecção pessimista que os poemas de Augusto dos
Anjos"
GILBERTO FREIRE
"A morbidez de Augusto dos Anjos alterava tudo que ele via e ouvia.
Dava-lhe o poder de exagerar com traços inesquecíveis suas impressões de decadência
física das pessoas e das coisas.
Inesquecíveis porque eram exagerados não por capricho de técnica, mas como
expressão do seu próprio "EU" sempre empático. Havia em Augusto
dos Anjos uma coisa de um moderno pintor Alemão expressionista. Um gosto mais
de decomposição do que de composição".
IDEM
"No Monólogo de uma Sombra, peça inicial que é uma espécie de manifesto
ou de programa do autor, encontra-se a pedra de toque para aferir os defeitos
e as qualidades principais do artista do EU, pois há naquele trabalho, vazados
no mesmo estilo de extravagante pirotecnia japonesa coisas detestáveis e coisas
dignas de admiração, idéias estapafúrdias e estrofes opulentissimas em que
tanto se admira a elevação do conceito como o requintado da forma".
EUDES BARROS
"O que Augusto vê dentro de casa é a morte, o pai morto, a família
perdida, o morcego nos caibros do quarto, a última aritmética, morte certa
de tudo. O elemento humano que o cerca não lhe traz conforto algum. Depois
de falar de bichos e de flora, de manga, de ameixa, de amêndoa, de álamo,
daquilo que ele chama a ordem odorífera dos sumos, ele descobre sempre a morte,
"a alfândega onde toda vida orgânica há de pagar o último imposto",
ou a "costureira funerária que cose para o homem a última camisa".
JOSÉ LINS DO RÊGO
"Quando o paraibano Augusto dos Anjos morreu, era apenas um mestre-escola
pobre e triste que não resistiu a uma gripe forte em Leopoldina, no interior
de Minas Gerais. Sete décadas depois, seu único livro de poesias, EU, continua
sendo vendido e apreciado pelo grande público, enquanto a crítica com a passagem
aberta por José Oiticica, já o situa entre os mais representativos e mais
originais poetas da língua portuguesa deste século".
JOSÉ NÊUMANNE PINTO
"O próprio Augusto dos Anjos, posto que portador de sensata modéstia,
tinha consciência do inegável valor de sua obra. Ao enviar notícias à família
no tocante às controvérsias que seu livro vinha suscitando desde a publicação,
dizia em carta de 13 de julho de 1912: o EU vem escandalizando o superficialismo
meio intelectual daqui."
HILDEBERTO BARBOSA FILHO
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Como um fantasma
que se refugia Fazia frio e o frio
que fazia Mas tu não vieste
ver minha desgraça! Levando apenas na
tumbal carcaça |
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O homem por sobre quem
caiu a praga Da tristeza do Mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada, pois, nada há que traga Sabe que sofre, mas o que não sabe Transpõe a vida do seu corpo inerme; |
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(I)
Para onde fôres, Pai, para onde fôres, Que coisa triste! O campo tão sem flores, Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria, -Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim (II) Madrugada de treze de janeiro. E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! E saí para ver a natureza! Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas, (III) Podre meu pai! A morte o olhar lhe vidra. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Amo meu pai na atômica desordem |
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Vês?! Ninguém assistiu
ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! Toma um fósforo. Acende teu cigarro! Se a alguém causa ainda pena a tua chaga, |
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"Sou uma Sombra!
Venho de outras eras, Do cosmopolitano das moneras... Polipo de recônditas reentrâncias, Larva de caos telúrico, procedo Da escuridão do cósmico segredo, Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Pairando acima dos mundanos tectos, Na existência social, possuo uma arma Com um pouco de saliva quotidiana Tal qual quem para o próprio túmulo olha, Aí vem sujo, coçar chegas plebéas, Quis compreender, quebrando estéreis normas, E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes, Tal a finalidade dos estames! Será calor, causa úbiqua de gozo, E o que ele foi: clavículas, abdômen, A desarrumação dos intestinos É uma trágica festa emocionante! E foi então para isto que esse doudo Estoutro agora é o sátiro peralta Brancas bacantes bêbadas o beijam. No horror de sua anômala nevrose, Sôfrego, o monstro as víctimas aguarda. Mas muitas vezes, quando a noite avança, Cresce-lhe a intracefálica tortura, É o despertar de um povo subterrâneo! As alucinações tactis pululam. Mingua-se o combustível da lanterna Ah! Dentro de toda a alma existe a prova Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa, Provo desta maneira ao Mundo odiento Continuo o martírio das creaturas: Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes Era a elégia panteísta do Universo, E o turbilhão de tais fonemas acres |
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