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Paraíba Poética
Ascendino Leite
LEITE (Ascendino) - Escritor bras. (N. Conceição do Piancó, Paraíba, 21.6.1915). Marcado pela infância modesta e a paisagem flagelada, que lhe terão transmitido o áspero sentimento da vida sofrida, foi profissionalmente funcionário público e também jornalista, em certo período como redactor de assuntos parlamentares. Dirigiu e chefiou a redação de vários jornais, em São Paulo e no Rio.
A comédia humana dos bastidores em breve mudaria de cenário, substituida a polít. Pela lit., de que, já não por dever de ofício, mas por gosto (e por vezes desgosto), seria o cronista não raro polêmico. Na obra de A.L. - jornalista, crítico, ficcionista - sobressai o que o autor designa por jornal literário, decerto para o distinguir do diário íntimo. No entanto, esse jornal não é alheio a reflexões de caráter intimista (aquilo que A.L. chama "euísmo"), embora preva;eça nele o registro minucioso de factos literários.
Há meio século testemunha da vida cultural brasileira, com os seus protagonistas e os seus comparsas, os seus criadores e os seus epígonos, as suas grandezas e as suas misérias, o extenso "jornal" de A.L. é uma obra consulta indispensável para o conhecimento dessa vida. Mas, ao lado do espectador da vida literária, muitas reflexões revelam sobretudo o homem interior, nem sempre em paz consigo e nem com os outros. Romancista formado na escola de Stendhal (que traduziu), A.L. parece conceber tb. A ficção como um espelho que o autor passeia pela estrada da vida reflecte tudo o que lhe passa diante.
Suspicaz em relação ao seu tempo e muito
crítico quanto a não poucas obras e autores consagrados pelo sufrágio popular,
A.L. conhece esse amargo prazer aristocrático de não ter numerosos leitores
- ou de só ter os leitores que ele próprio escolhe.
OBRAS: Crítica literária - Estética do Modernismo, 1936; Notas Provincianas,
1942; Ficção - A Viúva Branca, 1953; O Salto Mortal, 1958; A Prisão, 1958;
O Brasileiro, 1962. Jornal literário - I - Passado indefinido, 1963; II -
Os Dias Duvidosos, 1963; III - O Lucro de Deus, 1963; IV - A Velha Chama,
1965; V - As Coisas Feitas, 1968; VI - Visões do Cano Branco, 1969; VII -
O Vígia da Tarde, 1970; VIII - Um ano no outono, 1972; Os Dias Esquecidos,
1974; O Jogo das Ilusões, 1980; XI - Os dias Memoráveis, 1982; XII - O Velho
do Leblon, 1988. Uma seleção do "jornal" foi publicada com diversos
títulos: I - Durações; II - Sol a Sol Nordestino; III - O Motim das Agonias.
BIBL. José Rafael de Menezes, O Poder Reflexivo em Ascendino Leite (Univ.
Da Paraíba); Hildeberto Barbosa Filho, "A Paixão de Ver e de Sentir",
prólogo a Sol a Sol Nordestino.
JOÃO BIGOTTE CHORÃO (Verbete da Enciclopédia Verbo de "Autores
Luso-Brasileiros"editada em Portugal e recentemente lançada em Lisboa
e São Paulo, com 22 volumes).
MORTE EM CABEDELO
À WELLINGTON AGUIAR
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Inútil reverter-me à
vida que desde ontem, ao cair da tarde, propociou minha morte em Cabedelo. Horrível. Eu supunha haver nascido para derreter-me em teu secreto universo em Cabedelo. Orgulhoso do teu cio encapuzado. Agora é não ter boca para dizê-lo e sumir imediatamente com o meu filho. |
O
ÚLTIMO PECADO
À MADALENA ZÁCCARA
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Hoje de tarde, por certo
voltarás, com teu quebrantado jeito de olhar na minha direção, sim. Eu no texto, mais que um som, aceno ou riso, teu primeiro e último namorado, no rumo do que sonho em tí e mil fantasias em que te encaixas. Daí, até este instante admirável pelo que existiu e passou por nós teu pecado final. O meu também. |
PARÁFRASE A UMA REFLEXÃO DE AMIEL
À Violeta de Britto Lyra Salviano
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Caiu o edifício das
idéias ardeu o real quotidiano e o sonho em dúvida ficou. Que sítio, que lugar, que regiãio, há de sobrar na terra devastada ao ser desiludido e solitário? - O coração fiel de uma mulher. |
REBENTO
À ELIONNE DE SOUZA FEITOZA
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Rebento diverso do que
somos, louvo-te. Odeio que te desamem sendo o que és. Perto de tí, banha-me direto o teu claro dia. Que importas andes no alto e eu não te alcance? Através do céu escuro há um acontecer jubiloso; teu porte, respondendo por teu rosto cintilante, desafoga corações abaixo das estrelas. -Tu o mereces - digo; no teu corpo, o belo! Por tão prodigioso o dom que vem de ti tu fazes a terra mais rica, mais nascente. |
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Rosa. Rosa, seja quem
for é sempre mulher ou flor. Em outras línguas, Rose. Em brasileiro, flor ou cor. Rosa, rosa, detesto a rima, vaidosa. Como é pedante ó miss Rose, mas como é belo, oh, dona Rosa! Rosa entre flores e mulheres, rosa entre comendas e amuletos, rosa de prata, rosa de ouro, variações do nome Rosa: Maria Rosa ou Rosalice. E outras rosas pálidas, brancas, vermelhas, rosas negras ou mulatas. Houve um bandido em certa idade: Maria Rosa. As belas rosas da minha infância, as Auda-Rosas, as simples Rosas, as famintas rosas trans-nordestinas. Rosas de flancos impolutos, doce-de-côco sonho de noiva. Oh, gitanas Rositas Iorquianas! Oh, Rosalinas da Bahia! E tu, minha irmã pálida dos nautas, oh, geográfica misteriosa flor entre meridianos! Oh, singular Rosa dos Ventos aqui no trópico de Capricórnio. Rosa nos parques olorosa, rosa frágil. Rosa que eu afago e que me embevece com seu perfume e seu calor terrestre Rosa seja quem for. Rosa da Cruz, Rosa da Silva ou Rosa Leite, minha mulher. |
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Querida,
decobri que só tens dois braços e a eles anexado o poder mais sólido da beleza que às mãos enaltece tua divina sedução: última forma com que, inteira e altiva, movimentas e cativas a alma dos gestos, todas encorpadas, como linguiças amorosas, num prato artesanal de ouro e mel. Descobri, afinal, sobre teu colo nu uma pista abandonada para os meus vôos de boca aberta, ante te hálito, via os umbrosos vales de peito abaixo e suas ribeirinhas sendas celulares. E que, assim mesmo, sem braços e sem mãos, jamais serias maneta para mim. |
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