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Paraíba Poética

Abrahão Cost' Andrade

Abrahão Cost' Andrade nasceu aos 26 de fevereiro de 1974 no Estado da Paraíba. Professor desde 1989, lecionou História e Artes no Colégio Diocesano de Propriá-SE, local onde iniciou seus estudos secundários no curso pedagógico - curso que, passando por Fortaleza-CE, iria terminar no Instituto de Educação da Paraíba (IEP), na cidade de João Pessoa.

Desde 1990 e até 1992, foi professor de Religião no Colégio Pio X. Prestando o concurso vestibular em 1992, foi aprovado em 1º lugar para o curso de Filosofia. A partir do 2º semestre foi, por um ano, monitor de Introdução à Filosofia.

Em 1993, sob os auspícios do CNPq, trabalhou em uma pesquisa sobre Arte e Filosofia, tendo oportunidade de escrever uma monografia "O objeto ausente" (sobre o Formalismo Estético de Kant). Desde muito novo possui um pendor inestimável pêlos estudos. Seus trabalhos literários começaram a ser escritos em 1987, quando contava apenas 13 anos de idade.

Ávido por produzir e extremamente autocrítico, escreveu e rasgou mais de 15 livros. "Uma casa em ruínas", livro que em 1992 foi publicado com os recursos do escritor sob o título "Afroameríndia", é para ele seu primeiro trabalho que "valeu a pena". Ainda no ano de 1992, teve alguns dos seus trabalhos publicados no Sul do País, em Cuba, Argentina e Uruguai.

É colaborador assíduo do Correio das Artes, com publicações no Bazar e em outros jornais da Capital paraibana. Seu livro "Mulãria da Macambaria" angariou o Prêmio Silvino Olavo da Sub-Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba. Perguntado sobre qual o poeta que mais aprecia, respondeu: "Gosto de Marcus Accioly e todos os seus fantasmas."

 

ESPELHO CEGO

Abrahão Cost' Andrade

Devorar minha sorte
e vomitar meu sangue
no corpo de outro morto de cansaço,
beber seu líquido
e tragar seu sono,
seu suor de espanto e de espasmo.
Não posso revelar esse meu rosto:
me vejo à revelia e com raiva.
O espelho é um monturo sem luz,
meu corpo não faz parte de minha casa.
Se eu soubesse a dor de uma espora
talvez aceitaria
as rugas cavadas em meu rosto pelas horas.
Mas os meus dentes não são garras.
Os meus braços não são espadas.
Quem me mata é meu nervo e um grito
se esparrama sobre o suor da sala.
Devorar minha sede
e vomitar minha morte
no corpo de outro morto de cansaço.

 

TIMIDEZ

Abrahão Cost' Andrade

Eu teria mil coisas
para te olhar
- faltam-me olhos.

Teria mil coisas
para te dizer
- falta-me boca.

Teria mil coisas
para te tocar
- falta-me tato.

Teria Uma Coisa
para me encontrar contigo
- sobram-me corpo e ânsia. 

 
 

MULÃRIA DA MACAMBÁRIA

à minha irmã JOANINHA, muda e surda e no entanto vivida

Abrahão Cost' Andrade

JOANA foi embora
Embora não soubesso o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, rio, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macambária. 

 
 

OUTRO MENINO

Abrahão Cost' Andrade

Perdida está a mulher e sua carne
no abafado grito estendido pela noite
freme de surpresa e gozo
enquanto sua boca diz
que é gostoso, é gostoso.
Prucuro em sua cama o travesseiro
mas só encontro peles estendidas.
Sou eu um homem ou um devaneio ?
Sou labirinto
de couro azedo
e parcas carícias.
A noite é um pé de vento negro
e sabe regalar sua pele e suas ancas.
Sentado espio o pé e sinto-me primevo.
Uma amargura pousa em meu nariz
e sou cítrica criança.
Perdida a mulher em sua carne
no abafado grito estendido pela noite
freme de surpresa e gozo. 

 
 

MARTA

Abrahão Cost' Andrade

Em teus olhos vivos
uma pele macia de longe me faz carícia
e eu te sinto como um segredo
quando nos é contado
e depois a gente preferiria
nunca ter sabido.
Os teus braços peludos,
teu sorriso de pêssego, tua orelha de pelúcia.
Eu te sinto como um segredo e temo
o dia em que me espraiarei
na vasta areia de teu corpo
um segredo
e me trancarei perdidamente na sábia meninice
/de tuas retinas.
E temo também a hora de meu espanto,
quando distante de tí
me flagrar arranhado
por uma certeza tácita
de que te amo.
Em teus olhos vivos
uma pele de longe me faz carícia. 

 

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