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Quica
Quica
A FORMIGUINHA AVENTUREIRA
Era uma vez uma formiguinha muito curiosa, muito espertinha, muito corajosa
e também muito vaidosa. Sempre procurava estar arrumada, sempre se vestia
diferente das outras formigas, era a mais bonita. Tinha mania de ficar se
olhando no espelho, era também muito sonhadora. Vivia sonhando em viajar pelo
mundo, adorava passear pelo bosque, sempre atrás de coisas novas.
A rainha Paciência e que realmente era a paciência
em formiga, ficava sempre de olho na formiguinha, pois ela era órfã, seus
pais tinham morrido de uma morte superpesada, eles foram pisados por uma pessoa
de um metro e oitenta e cinco centímetros, e cento e dez quilos, que tinha
vindo fazer um piquenique no bosque. A rainha queria educá-la à sua maneira,
pois achava que ela tinha uma caídinha pra ser preguiçosa, achava que
ela vivia nas nuvens. E quem já viu formiga preguiçosa e sonhadora? A rainha
dizia que ela tinha vocação pra ser cigarra. Mas como? Se nem cantar bonito
como uma cigarra ela sabia, embora tentasse, mas não tinha jeito, tava mais
pra cantiga de grilo do que de cigarra.
A rainha Paciência mesmo com toda sua paciência,
vivia brigando com ela. Não dava trégua, queria que ela trabalhasse igual
as outras formigas. O inverno estava chegando, tinham que encher a despensa
com bastante alimento, pois tinha saído no jornal da televisão que esse inverno
seria muito forte. Todas as formigas estavam pegando alimento e lenha no bosque.
Ela também trabalhava, mas sozinha, pois detestava aquela fila das formigas.
Sempre tudo igual, todas se vestiam do mesmo jeito, faziam as mesmas coisas,
viviam sempre em fila. E só faziam trabalhar, trabalhar, trabalhar.
Ela sempre sonhava e dizia:
_Ainda vou ser a rainha das formigas, a primeira coisa que
vou decretar será acabar com a fila. Quem já viu tanta fila? Parece bando
de abelhas...fila pra pegar folha; fila pra trazer água; fila pra tomar banho;
fila até pra ir pra cama. Não aguento mais essa vida de andar uma atrás da
outra, não sou vagão de trem, eu hem?! Quero liberdade, quero ser independente,
viajar, conhecer o mundo, trabalha-se demais aqui, ninguém brinca, ninguém
curte a vida. A rainha passa o dia naquele trono, não coloca nem a cabeça
na janela, vivemos todos num formigueiro superapertado, quando entram duas
formigas na cozinha, uma tem que sair de ré, pois não dá pra fazer a curva
com o corpo. Quando eu for a rainha, tudo vai ser diferente.
Então, um dia que estavam todos dormindo, inclusive
o vigia do buraco de formiga , ela arrumou sua trouxinha enrolada num lençol
e amarrado no pau de vassoura e saiu pelo mundo atrás de aventuras.
Quando amanheceu, já estava bem longe do seu
buraco. De repente ela viu um coelhinho vindo na sua direção, quase que a
atropelava.
_ Ei! Olha por onde anda! Quase que você me pisava.
_ Desculpa, não te vi. E o que você está fazendo sozinha?
Nunca vi formiga andar só. Vocês só andam em grupo, uma atrás da outra.
_ Eu sou diferente. Sou orfã. E ainda mais eu
detesto a vida de formiga. Não aguentava mais aquela vida de fila, minha vida
era uma fila só. Dei um basta a tudo isso, quero ser independente.Sou sozinha
no mundo mesmo, como já disse, não tenho família.
_ E daí? Conheço um monte de formigas orfãs, não interessa
se tem pais ou não, quem manda mesmo é a rainha. Ué...e a sua rainha deixou
você ir embora do buraco - quartel? Que rainha mais negligente, sem
autoridade, nunca vi disso. Uma revolucionária dentro do buraco e ela não
fez nada?.Se você fosse uma formiga do reinado da rainha Ditadurajá com certeza
você estaria de castigo na solitária.
_ Quem é essa rainha? Nunca ouvi falar. E olha
que eu conheço algumas rainhas. Os formigueiros de vez em quando se visitam,
temos que estar sempre unidas. Mas essa rainha Ditado...quero dizer Dentadura
não conheço.
_ Rainha Ditadurajá, formiguinha! Ih... você
é meio maluquinha, né?
_ Ditadurajá, Dentadura, seja lá o que for...
não conheço nem quero conhecer e tenho raiva de quem conhece. Tchau! Estou
perdendo meu tempo com voce.
_Que formiguinha abusada, eu hem?! Se cuide,
tchau!
E lá vai a formiguinha Aventureira se aventurar
pelo mundo. Ela prestava atenção a tudo que passava: cada árvore diferente,
cada pedra, cada flor, só não prestou atenção ao dia que já tava
passando, estava quase escurecendo.
E aí? Onde ela iria passar a noite?
_ Ai...tou ficando com medo, tá ficando escuro.
Se pelo menos eu achasse um buraco de formiga. Vai embora medo! Nem vem que
não tem! Não tenho medo de nada!
Continuou sua caminhada, quando, de repente, começou
a escutar um barulho:
_ Parece uma batucada, será uma festa? O barulho vem
daquele lado, perto da mangueira elegante.
O barulho vinha de um formigueiro que ficava embaixo da mangueira
elegante. A formiguinha foi devagarinho se aproximando. Ela era tão corajosa
que teve a ousadia de entrar no formigueiro. Êta formiguinha danadinha! O
que ela viu deixou-a chocada: Um monte de formigas trabalhando com correntes
amarradas nas pernas. Formigas velhas, crianças, doentes; formigas que não
podiam de forma alguma estar trabalhando. Que loucura era essa que ela estava
vendo?
Pensou em sair dali correndo, mas não podia fazer isso com
aquelas formigas, tinha que ajudá-las de alguma forma, e também estava supercuriosa
para saber por que estavam trabalhando de madrugada e daquela forma como priosioneiras.
Ela se escondeu atrás de uma saliência do buraco de
formiga e conseguiu falar com uma delas. Era uma formiga bem velhinha,
bem magrinha, as perninhas eram mais finas do que a mais fina das teias de
aranha que podia existir no mundo. A formiguinha Aventureira teve uma pena
enorme, teve até vontade de chorar, mas se controlou e perguntou:
_ Por que vocês estão trabalhando, se vocês não têm
mais condições de trabalhar? Por que até formigas nenêns estão trabalhando?
Por que estão trabalhando amarradas? E por que estão trabalhando a essa hora
da noite?
Eram tantos porquês que a formiga velhinha magricela ficou
tonta.
_ Primeiro você quer saber o quê? Aliás, antes
de responder todas suas perguntas eu gostaria de saber quem é você, e o que
está fazendo aqui no buraco-prisão Casa de Detenção Tirana, pertencente ao
formigueiro da rainha Ditadurajá.
_ Eu estava passando aqui por perto quando escutei
um barulho esquisito, então, me aproximei para ver o que era, pensei que estava
havendo uma festa, pois o barulho do martelo de vocês parecia uma batucada
de samba. Acabei de ouvir falar dessa rainha Ditadurajá.
_ É que a gente fica fazendo isso para tentar distrair
as crianças, fazemos nosso trabalho em ritmo de samba para elas não ficarem
tão tristes, pois como você deve ter percebido somos prisioneiras da rainha
Ditadurajá. Quando manda prender alguém que ela acha que fez alguma coisa
errada, a família da dita cuja é presa também, por isso que tem aqui velhos,
crianças e formigas doentes. Pois a família toda tem que ser presa, independente
de idade e de saúde. Mas o que você estava fazendo sozinha na floresta? A
sua rainha deixa você sair sozinha?
_ Eu fugi do meu formigueiro. Mas a rainha Paciência era um
amor de formiga. Eu fugi porque não aguentava mais a vida de formiga. Mas
deixa isso prá lá...eu gostaria de ajudar vocês. Eu só vi dois vigias na entrada
da prisão, e mesmo assim estavam distraídos jogando dominó, tem mais algum
vigia por perto?
_ Não. Ninguém se arrisca a fugir. Temos medo, pois o fugitivo
vai parar na solitária.
_ Mas que rainha cruel! Isso não pode continuar. Irei ajudar
vocês.Eu tenho aqui na minha mochila um canivete super amolado, ele corta
até metal, irei cortar sua corrente e você me ajuda a cortar das outras. Depois
amarraremos os vigias e fugiremos pela floresta, correremos a noite toda e
quando amanhecer já estaremos bastante longe.
_Mas isso não é certo...temos que obedecer nossa rainha.
_ Eu topo e a senhora também, viu dona Graciosa? Muito
prazer, eu me chamo Dona Dorinha, escutei toda conversa de vocês. Gostei do
seu plano e gostei muito de você, muito obrigada por ter a coragem de
nos ajudar.
_ Muito prazer dona Dorinha, também gostei da senhora, mas
vamos lá, pois temos que aproveitar a noite, e pelo que estou vendo, tem formiga
que não vai ter condições de correr, vamos ter que carregá-las, portanto,
vamos logo com isso!
Depois que todas estavam soltas e os vigias presos,
as mais fortes carregaram nas costas as mais fraquinhas e os nenens, e saíram
correndo mais rápido do que coelho assustado com bomba de São João. Quando
o dia amanheceu, elas já estavam bem longe da prisão. Mesmo assim a formiguinha
Aventureira achou melhor as últimas ficarem apagando os rastos, e para se
sentirem mais seguras ainda achou melhor atravessarem o rio. A formiga Aventureira
pegou um pedaço de pau grande e empurrou pra perto do rio, pediu pra que todas
as formigas subissem nele e deixassem a correnteza levá-las para bem longe.
Desceram cascatas enormes e foram parar num bosque lindo. Chegando lá a formiguinha
Aventureira reuniu todos numa pedra e fez uma reunião.
_Bem amigas...graças a Deus conseguimos fugir. Vocês
agora são livres. Acho que aqui não tem mais perigo. Jamais a rainha Ditadurajá
encontrará vocês aqui, pois estamos bastante longe do seu buraco reinado.
E para comemorar vamos catar comidas e bebidas, quem for músico improvise
um instrumento, pois vamos fazer uma festança, vamos cantar e dançar para
comemorar nossa vitória, e vamos ao grito de vitória! Iupi!!iupi!!
E todos gritaram: Iupi!!Iupi!!
A festa foi de uma animação tamanha, os outros bichos atraídos
pela alegria também participaram, mesmo sem saber o motivo da comemoração.
A festa durou o dia inteiro.
Quando acabou, todos adormeceram exaustos. Ao amanhecer
a formiguinha Aventureira organizou suas coisas para continuar a viagem, então,
dona Graciosa com o barulho da formiguinha Aventureira, acordou.
_Ué...você vai pra onde? Não vai ficar com a gente?
E quem vai tomar conta da gente? Quem vai mandar na gente?
_ Vocês agora são livres. Podem fazer com as suas vidas
o que quiserem.
_ Ei! Acordem formigas! A formiga Aventureira vai nos
abandonar! E agora como vamos viver?
Todas se levantaram assustadas.
_ Você não pode nos abandonar, não faça isso com a gente,
senão podemos morrer.
_ Calma! Tudo bem. Irei ficar com vocês uns dias até ver que
já estão organizadas. Primeira coisa que temos a fazer é um formigueiro. De
preferência bem grande e bem bonito. Vou fazer o projeto nessa folha.
Ela fez um formigueiro enorme, cada família com seu quarto.
Uma piscina, um parque para as crianças, uma salão para dança, um salão para
a ceia, ninguém tinha visto um projeto de formigueiro tão bonito.
Depois de alguns dias ficou pronto. O formigueiro ficou maior
do que pensavam. E ficou de uma beleza estonteante. Todo enfeitado de flores,
cada cantinho era mais bonito do que o outro. Dava prazer ficar nesse formigueiro
no inverno.
Ela ensinou pra elas a dividirem as tarefas de uma forma que
ficasse com tempo livre para se divertirem, e não precisava ficar em fila,
cada um fazia sua parte, todos faziam suas tarefas com o maior capricho,
mas no seu ritmo e cada um com sua vocação. As que tinham vocação para lenhador
cuidavam da lenha, as que gostavam de cozinhar trabalhavam na cozinha. E assim
a vida do formigueiro era alegria só. Tinha noite que cantavam e dançavam
sem parar.
Todos viviam felizes, as doentes ficaram com saúde novamente.
As velhinhas eram tratadas com respeito. As crianças viviam sorrindo e fazendo
suas traquinagens.
Os outros bichos do bosque nunca tinham visto um formigueiro
tão feliz. Mas um dia a formiguinha Aventureira deu a péssima notícia: iria
embora.
_Bem, o combinado foi esse, por favor não fiquem tristes.
_Nós sabemos, mas você não é feliz aqui?
_Nunca
fui tão feliz na minha vida. Mas eu tenho que continuar o meu destino.
_ E quem foi que disse que o seu destino não é ser rainha
desse formigueiro que você mesma criou?
Ela se virou para ver quem tinha falado isso com uma
voz tão bonita.
Era o formiguinha Delírio e realmente ele era delirante,
era o colírio de todas as formiguinhas do formigueiro. Ela o achava lindo,
forte, trabalhador, mas sempre discreto, calado. Todas ficaram surpresas quando
ouviram-no falar assim.
E ele continuou:
_ Vocês não concordam comigo? Ela já pode ser considerada
nossa rainha oficial; aliás desde o início ela tem feito o papel de rainha,
e das melhores! Acho que não existe nesse planeta um formigueiro mais feliz.
Não passamos o dia em fila, todos nós somos livres, e aprendemos a dividir
nosso tempo de uma forma que trabalhamos com prazer e para viver com mais
conforto e alegria, e não como os outros formigueiros que vivem para trabalhar.
Portanto, desejamos do fundo dos nossos corações que você seja nossa rainha.
Iremos respeitá-la como a rainha das rainhas.
Todos aplaudiram de pé. A formiguinha ficou toda emocionada.
Realmente ela era muito feliz ali. Teve mais aventuras do que nunca imaginou.
E principalmente ficou encantada com o discurso do formiguinha Delírio. Ela
aceitou toda feliz ser a rainha oficial.
Os dias foram passando, ela e o formiguinha Delírio foram
se apaixonando e resolveram casar. Convidaram todas as formigas do formigueiro
da rainha Paciência. O casamento durou três dias e três noites de festa.
O formigueiro da rainha Ditadurajá teve uma revolução e tiraram
a rainha Ditadurajá do seu trono. O exemplo do formigueiro da rainha Aventureira
foi falado e imitado em todos os formigueiros do planeta Terra e até do planeta
Marte. Até as abelhas começaram a imitar a rainha Aventureira.
E todas as formigas de todos os formigueiros viveram felizes
para sempre.
FIM
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