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Contos Nordestinos
Luciana Henrique de Alcântara
Luciana Alcântara
Perfume
de jasmim
- Boa tarde! Desculpe a intromissão
mas você está com um pouco de maionese no canto da boca.
Essas foram as primeiras palavras que ouvi de Caio. Achei estranho porque
não tenho o hábito de falar com pessoas desconhecidas, não sou muito simpática
à primeira vista, e ele era um completo desconhecido. Ele ficou parado, olhando-me
com enormes olhos negros e um sorriso encantador nos lábios. De início, não
entendi bem o que aquele belo desconhecido queria comigo. Eu o encarei seriamente
e acabei sorrindo quando captei sua mensagem. Era uma coisa tão fora do comum
que, a princípio, nem prestei atenção em suas palavras, apenas em seus lindos
olhos que me encaravam com uma estranha doçura.
Não achei outra saída a não ser convidá-lo para se sentar. Ele aceitou, contudo,
não sem antes oferecer-se para limpar minha boca. Fiquei atônita com tamanha
ousadia, mas meu corpo logo se excitou com o toque de suas mãos em meu rosto.
Caio acompanhou-me durante o lanche. Infelizmente, estava meio apressada por
causa do trabalho. Despedi-me e entreguei meu cartão de visitas a ele com
uma promessa de jantarmos qualquer noite. Gostei do belo sorriso de satisfação
que iluminou seu rosto. Eu, geralmente, sou bastante tímida mas seus olhos
atuaram sobre mim como um verdadeiro canto de sereia.
Naquela noite, cheguei em casa completamente exausta, tinha trabalhado o dia
inteiro. Apesar de muito cansada, não conseguia parar de pensar no meu inusitado
encontro da tarde. Caio era tão gentil e encantador, conseguia combinar um
atraente ar sedutor com uma ingenuidade quase pueril. Ele conquistou-me e
eu ansiava por encontrá-lo novamente. Era um desejo tão forte que estremeci
ao ouvir sua envolvente voz ao telefone convidando-me para um jantar no dia
seguinte. Tive ímpetos de recusar o convite mas diante de sua insistência
não pude resistir. Iríamos nos encontrar em um conhecido restaurante. Não
consegui dormir direito naquela noite, estava muito excitada com o encontro,
há muito tempo não conhecia alguém tão interessante. Acho que a incerteza
diante de meu desconhecido cavalheiro contribuía muito para a minha excitação.
Caio já estava a minha espera. Ele foi extremamente gentil e soube deixar-me
inteiramente à vontade. Logo estávamos conversando como velhos amigos e sobre
várias coisas. Notei que seus interesses combinavam exatamente com os meus.
Tivemos um jantar muito agradável. Na hora de sairmos, tive a errônea impressão
de que a noite chegara ao seu fim mas aquilo tinha sido apenas o começo.
Caio levou-me a um bar que ele freqüentava. Mulheres nuas dançavam sensualmente
espalhadas por todo o bar, dentro de cilindros de vidro. Escolhemos uma mesa
no centro do salão, em frente a uma espécie de passarela. Apesar de já desconfiar,
logo tive a confirmação de que servia para shows de striptease. Num certo
momento, as apresentações comuns cessaram e uma mulher entrou, inundando o
bar com um delicioso aroma de jasmim. Ela era belíssima e estava nua. Sua
pele era muito branca e as luzes que incidiam sobre seu corpo davam-lhe um
ar meio sobrenatural. Várias pessoas olhavam apaixonadamente para ela. O olhar
de Caio era estranho, cínico, quase zombeteiro. Sua apresentação foi magnífica,
ela dançava eroticamente mas sua aparência angelical não permitia que se distinguisse
nela qualquer traço da vulgaridade, às vezes, comum, em dançarinas de bar.
Pela primeira vez em minha vida, uma mulher excitou-me. Seu jeito de dançar,
seu corpo extremamente branco e perfeito, aquele clima exótico, envolveram-me
de tal forma que fiquei excitada. Alguns minutos depois, ela reapareceu no
bar com um vestido azul que ressaltava bastante sua beleza. Ela ia cumprimentando
a todos e para minha surpresa veio sentar-se conosco. Fiquei mais surpresa
ainda quando ela beijou Caio. Ele apresentou-nos, seu nome era Eve. Sem dúvida,
ela era muito bonita. Caio contou-me depois que eles tinham sido amantes.
Apesar de admirar sua beleza, não gostei dela porque senti ciúme de sua intimidade
com Caio. Também estava bastante envergonhada pelo que senti em relação a
ela e seu olhar era tão profundo que parecia ser capaz de enxergar minha alma.
Finalmente, fomos embora.
A noite tinha sido tão excitante que me senti inclinada a convidar Caio para
ficar. No entanto, não tive coragem de concluir a idéia diante de seu simples
"boa noite" e da ausência de um beijo de despedida.
No dia seguinte ao nosso encontro, fiquei em dúvida se deveria ligar ou não,
mas essa questão durou até o exato momento em que me dei conta de que eu não
tinha o telefone dele, não tinha como encontrá-lo. Fiquei alguns dias angustiada,
desejando que ele ligasse, mas a ansiedade foi passando e pensei que não tornaria
a vê-lo. Doce engano, ele ligou-me novamente. Dessa vez, fiquei mais receosa
de encontrá-lo. Tinha medo de que ele tivesse notado o que senti por sua amiga,
Eve. Sempre gostei de homens, nunca tive experiência com mulheres, nem sequer
desejado alguma. A atração que senti por Eve incomodou-me bastante. Não consegui
resistir muito, precisava encontrar Caio novamente.
Fomos a um bar numa praia fora da cidade. Conversamos um pouco e ele convidou-me
para darmos um passeio. Estava frio, então Caio tirou seu casaco e circundou
meus ombros com ele. A aproximação foi muito grande e nossos rostos quase
se tocaram. Repentinamente, Caio enlaçou-me a cintura e deu-me um longo beijo.
Adorei a pressão de seus lábios. Ele começou a beijar meu pescoço suavemente.
Virou-me de costas e com uma das mãos levantou meu cabelo para que sua boca
pudesse tocar minha nuca, enquanto sua outra mão envolvia minha cintura gentilmente.
Tirou minha blusa e continuou a me beijar, passando seus lábios pelas minhas
costas nuas, enquanto suas mãos acariciavam meus seios. Ele ajoelhou-se devagar,
escorregando sua boca pelas minhas costas. Colocou suas mãos por dentro de
minha saia, acariciando minhas pernas e tirando minha calcinha. Eu sentia-me
confusa, estava bastante temerosa de que alguém nos visse. Apesar de todo
esse redemoinho de sensações, o desejo de sentir o corpo dele era extremo.
Cuidadosamente, ele desabotoou minha saia e a deixou cair pelas minhas pernas.
Deitou-me com as costas na areia. Foi meio incômodo o toque áspero da areia
em meu corpo, mas eu não me importei com isso. Ele tirou a própria roupa e
ajoelhou-se na areia junto às minhas pernas. Estremeci ao sentir sua língua
quente e molhada em meu sexo. Ele devorou-me alucinadamente durante uma deliciosa
eternidade, então parou e suavemente repousou seu corpo sobre o meu. Começou
a penetrar-me delicadamente, apenas nos primeiros momentos. Penetrava-me cada
vez com mais força e profundamente. Eu delirava com seus movimentos tão carinhosos
e ao mesmo tempo um pouco violentos, mas ao contrário de me machucar, tais
movimentos levaram-me ao êxtase total. Ficamos durante algum tempo deitados
na areia úmida, depois nos vestimos e ele deixou-me em casa com um doce beijo
de boa noite.
O outro dia era um sábado, eu não trabalhava. Passei o dia inteiro em casa,
só pensando no que tinha acontecido na noite anterior, ainda meio sem acreditar
que tudo aquilo realmente acontecera. Fiquei maravilhada com a loucura que
tínhamos feito. Foi um momento muito mágico e sublime, sem dúvida, mas também
completamente alucinante e selvagem, uma combinação perfeita. Nunca tinha
sentido tanto prazer. Meus outros relacionamentos sempre tinham sido muito
tradicionais, nunca tinha feito nada de extraordinário.
À noite saí com Marcos, um antigo namorado. Apesar de gostar muito dele, nosso
relacionamento é difícil. Não tenho vontade de me relacionar com ele novamente
embora ele queira, mas somos amigos. Falei sobre Caio, Marcos disse que eu
estava sendo imprudente e que deveria tomar cuidado. Acho que sempre foi esse
seu receio de mergulhar de cabeça nas coisas que me afastou dele. Infelizmente,
terminamos o jantar desastrosamente com uma irritante discussão.
Convidei Marcos para um outro jantar. Fomos para o restaurante que costumávamos
ir quando estávamos juntos. Quando nosso jantar estava sendo servido, entrou
um casal que me causou bastante espanto. Caio e Eve entraram sem nem olhar
para nossa mesa. Sabia que eles tinham sido amantes mas me surpreendi em ver
os dois juntos. Claro que eu e Caio não tínhamos um relacionamento mas senti
ciúme. Marcos notou meu incômodo e, rapidamente, entendeu o motivo. Não deve
ter gostado muito, percebi nele um leve ar de aborrecimento. Tentei disfarçar
e me concentrar no nosso jantar.
Tudo estava sob controle até um garçom vir entregar-me um bilhete com uma
rosa. Não disse quem tinha mandado mas nem precisava. Marcos dirigiu-me um
olhar irritado, contudo, mesmo assim, li o bilhete. "Queremos você.",
estava escrito. Ele arrancou o bilhete das minhas mãos e quando leu, lançou
um olhar de raiva e indignação para Caio. Tive que segurar seu braço para
que ele não se levantasse e fosse até eles. Olhei para Caio, ele sorria. Não
tinha nele nenhuma sombra sequer daqueles lindos e doces olhos negros e do
sorriso moleque que tinham me conquistado. Assustei-me com seu sorriso e seu
olhar cruel. Não agüentando mais aquela situação, pedi a conta e fui embora
com Marcos. Nem sequer consegui olhar novamente para eles, apenas senti aquele
olhar cravado em minhas costas.
No dia seguinte, Caio mandou-me flores com um cartão de desculpas. Estava
decidida a não o encontrar novamente, por isso não liguei para o número do
cartão.
Ao chegar em casa tive uma grande surpresa. Assim que cruzei a porta senti
um intenso perfume de jasmim. Meu apartamento estava repleto de flores. Fiquei
intrigada porque apesar do cheiro de jasmim não havia nenhum entre as flores.
Encontrei um envelope em cima da cama que continha uma chave e um endereço.
Não resisti à curiosidade e resolvi ir ao encontro de Caio.
O endereço, como já previa, era de um hotel. Caio estava a minha espera no
quarto. Ele deu-me um longo beijo e entregou-me uma bebida.
- Sabia que viria, Alex.
Comecei a sentir-me tonta e desmaiei.
Ao acordar, estava com o corpo levemente suspenso. Meus braços estavam presos
nos pulsos por uma corda mas eu conseguia tocar o chão com a ponta dos pés.
Sentia meu corpo nu e meus olhos estavam vendados. Um forte cheiro de jasmim
inundava o quarto.
Lábios tocaram minha boca. Não eram os de Caio. Mãos acariciavam meu corpo.
As mãos, a boca, o jasmim. Assustei-me com a descoberta de que era Eve quem
me tocava.
Exatamente na hora em que tentei gritar, fui amordaçada, não por Eve, que
continuava a tocar meu corpo. Dessa vez, não houve excitação, senti medo.
Eve começou a beijar meu corpo inteiro. Ajoelhou-se a minha frente e senti
sua língua tocar meu sexo. Suas pressões eram muito ágeis e intensas, mescladas
com mordidas que iam vencendo meu medo e deixando-me bastante excitada. Caio
também me tocava. Meu pescoço, seios, costas, tudo ia sendo explorado por
sua boca.
Eu nunca havia experimentado uma relação com duas pessoas ao mesmo tempo.
Minhas sensações eram confusas. Sentia excitação, medo e repulsa. Mas a atração
pelos dois era tão forte e os estímulos tão intensos que não resisti e gozei
na boca de Eve.
Ela levantou-se e tirou a venda dos meus olhos. Fiquei bastante envergonhada
pelo que tinha acontecido mas enfrentei os olhares dos dois. Meus braços doíam
bastante e eu sentia que meus pulsos estavam feridos.
Caio sentou-se, olhou para mim e sorriu.
- Envergonhada, Alex? Não fique. Você agiu exatamente da maneira que esperávamos.
Agora que tudo está concluído, podemos contar-lhe a nossa verdadeira intenção.
Precisávamos de alguém que nos amasse de igual forma. Alguém que sentisse
atração por nós dois.
Eve aproximou-se e beijou um de meus seios.
- Nós queremos você, Alex – ela disse – Desde o primeiro momento em que a
vimos, sabíamos que era nossa presa perfeita.
- Eu e Eve temos uma ligação especial. Precisamos de você para fortalecê-la.
Nossa união será abençoada com seu sangue.
Eve aproximou-se da cama e apanhou uma espécie de punhal. Era uma arma muito
bonita, dourada e ornada com pedras preciosas. Mas a simples visão dela foi
suficiente para me inspirar um terror extremo.
Caio foi até o banheiro e trouxe uma bacia cheia de um líquido vermelho e
viscoso que sem dúvida alguma era sangue. Ele colocou uma das mãos no sangue
e começou a marcar o meu corpo. Sentia muito medo e não resistindo a tudo
aquilo comecei a chorar. Ele olhou para mim, e deu um sorriso cruel, que me
fez ficar ainda mais amedrontada. Beijou minha testa e lambeu minhas lágrimas.
Eve aproximou-se de nós e também desenhou coisas em meu corpo com aquele sangue.
Eles tiraram as roupas e fizeram sexo na minha frente. Foi uma relação desprezível.
Pareciam animais no cio. Acariciavam-se, cobertos de sangue. Seus gozos misturaram-se
àquele sangue cuja procedência eu não queria sequer imaginar.
Aproximaram-se de mim e beijaram meu corpo inteiro. Pegaram o punhal e disseram
coisas que eu não consegui entender. Os dois juntos o seguraram e o passaram
por todo o meu corpo. Minha pele se retesava a cada toque da lâmina afiada.
Eles beijaram minha testa, ergueram o punhal e estavam prestes a afundá-lo
em meu peito quando ouvi gritos no corredor e a porta do quarto foi escancarada.
Três homens entraram e partiram para cima de Caio e Eve, desarmando-os e imobilizando-os.
Fiquei aliviada quando vi que eram da polícia.
Marcos entrou logo depois. Estava machucada e exausta, além de muito assustada,
mas nunca fiquei tão feliz em vê-lo. Ele pegou o maldito punhal, cortou a
corda que me prendia e tirou a mordaça. Apanhou o lençol da cama e envolveu
meu corpo nu. Pegou-me nos braços e me tirou daquele quarto tenebroso. Antes
de me colocarem numa ambulância, Caio e Eve foram tirados do prédio. Nunca
vou esquecer os olhares de ódio que eles me lançaram.
Antes de ir ao hotel, eu liguei para Marcos e deixei um recado em sua secretária
explicando tudo. Intuição? Talvez. Só sei que graças a Marcos, eu continuei
viva. Olhei para ele e, naquele momento, eu o amei como nunca.
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