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Contos Nordestinos
Luís Arraes
Luís Arraes
O SILENCIO DO INOCENTE*
"A
idéia de vítima significa inocência. E inocência, pela lógica inexorável que
rege todos os termos relacionais, sugere culpa". Susan Sontag
Foi um enterro simples. Ali estavam seus amigos. Não tinha família, nunca
teve. Teve sempre, sim, amigos. A sua volta, na sua despedida,
abraçavam-se, choravam. Não falavam entre si. Só gestos e o silêncio do fim
da tarde, no cemitério. Além da simplicidade, havia uma dignidade naquele
enterro. Enterrava-se um homem bom. Um homem de bem, como às vezes se
prefere dizer.
Quando o padre terminou sua preleção, um de nós pediu licença para falar.
Causou-nos surpresa porque era um dos mais tímidos e um dos menos
loquazes. Fez num ritmo lento, mas sem hesitação, um perfil do amigo morto.
Tocou-me muito a parte final de sua homenagem em que se referiu ao que se
enterrava história, que transcrevo de cabeça.
"Talvez tenha sido o primeiro daqui a tê-lo conhecido. São tantos os
anos de
nossa amizade que perco as contas.
Não tenhocomo contar tudo o que gostaria de falar dele. Tudo que tenho a
dizer. Gostaria de falar de um fato, desconhecido de vocês todos. Um fato
inusitado, mas um essencial em minha vida. Um fato que marcou minha
existência para sempre, que talvez cindiu-a em dois. Éramos estudantes
ainda. Depois de estudarmos, preparando os exames finais, fomos à varanda
do meu alojamento no campus. Nossos estúdios eram vizinhos. Tomávamos
cerveja, sua conversa já era naquela época a que vocês conheceram.
Diversificada. Fina. Rica em imagens e humor. Num gesto involuntário, ao me
levantar da cadeira, esbarrei com o cotovelo num jarro de flores. Ouviu-se
um
grito agudo, seguido de vozes misturadas numa algazarra da qual não
conseguia-se reconhecer nenhum sentido. Eu fiquei sem ação e ele então
passou ao comando. Apagou a luz da varanda e da sala, me colocou no sofá
e sentou-se na cadeira ao lado. Permanecemos em silêncio por um bom
momento. Só vim a apresentar sinal de vida quando caí num choro convulso.
Naquela altura ainda não sabíamos que o jarro havia matado uma criança,
mas sabíamos pelo ruído que vinha do térreo que alguma coisa grave tinha
acontecido. Com poucas palavras ele soube me trazer a calma de volta.
Apresentava-se como prova viva e verdadeira de minha inocência. Um
acidente. Um acidente. Repetia enquanto me amparava pelos ombros. E
assim a história foi concluída. Um triste acidente, uma triste coincidência
a
desse menino estar passando diante de um prédio alto, numa noite de
ventania, no momento exato em que um jarro despencava.
Nunca mais voltamos a falar no que aconteceu nem um com o outro, e tenho
certeza também pela parte dele, com ninguém mais.
Essa história se passou há muito tempo e talvez vocês se perguntem o por
quê eu a estar revelando agora e nessa circunstância.
O que eu queria aqui, na verdade, era revelar essa culpa que eu carrego, no
momento em que se enterra a prova de minha inocência. Ao dizer isso
percebo que poderia dizer exatamente o contrário. Revelo minha inocência no
momento em que é enterrada a minha culpa. Como se elas, culpa e inocência
não fossem o contrário uma da outra mas faces diferentes de uma única
coisa.
Não sei porque mistério o silêncio definitivo do nosso amigo - silêncio
guardado a vida inteira - me fez falar. Talvez se deva a que antes eu não
estava só e o sentido de minhas palavras seja o de querer não estar só, a
partir de agora.
Era o que eu tinha a dizer.
Aproximamo-nos dele e foi num abraço conjunto, juntando todos nós que
assistimos a descida à terra do caixão do nosso amigo.
in Diário de Pernambuco, 08/07/99
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