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Contos Nordestinos

Luís Arraes

LUÍS ARRAES é pernambucano do Recife, da classe de 59, gosta de poesias, mas prefere mesmo escrever contos.

 

Luís Arraes

O SILENCIO DO INOCENTE*

 

 "A idéia de vítima significa inocência. E inocência, pela lógica inexorável que  
                         rege todos os termos relacionais, sugere culpa". Susan Sontag  

                  Foi um enterro simples. Ali estavam seus amigos. Não tinha família, nunca 
                  teve. Teve sempre, sim, amigos. A sua volta, na sua despedida, 
                  abraçavam-se, choravam. Não falavam entre si. Só gestos e o silêncio do fim 
                  da tarde, no cemitério. Além da simplicidade, havia uma dignidade naquele 
                  enterro. Enterrava-se um homem bom. Um homem de bem, como às vezes se 
                  prefere dizer. 

                  Quando o padre terminou sua preleção, um de nós pediu licença para falar. 
                  Causou-nos surpresa porque era um dos mais tímidos e um dos menos 
                  loquazes. Fez num ritmo lento, mas sem hesitação, um perfil do amigo morto. 
                  Tocou-me muito a parte final de sua homenagem em que se referiu ao que se 
                  enterrava história, que transcrevo de cabeça. 

                  "Talvez tenha sido o primeiro daqui a tê-lo conhecido. São tantos os anos de 
                  nossa amizade que perco as contas. 

                  Não tenhocomo contar tudo o que gostaria de falar dele. Tudo que tenho a 
                  dizer. Gostaria de falar de um fato, desconhecido de vocês todos. Um fato 
                  inusitado, mas um essencial em minha vida. Um fato que marcou minha 
                  existência para sempre, que talvez cindiu-a em dois. Éramos estudantes 
                  ainda. Depois de estudarmos, preparando os exames finais, fomos à varanda 
                  do meu alojamento no campus. Nossos estúdios eram vizinhos. Tomávamos 
                  cerveja, sua conversa já era naquela época a que vocês conheceram. 
                  Diversificada. Fina. Rica em imagens e humor. Num gesto involuntário, ao me 
                  levantar da cadeira, esbarrei com o cotovelo num jarro de flores. Ouviu-se um 
                  grito agudo, seguido de vozes misturadas numa algazarra da qual não 
                  conseguia-se reconhecer nenhum sentido. Eu fiquei sem ação e ele então 
                  passou ao comando. Apagou a luz da varanda e da sala, me colocou no sofá 
                  e sentou-se na cadeira ao lado. Permanecemos em silêncio por um bom 
                  momento. Só vim a apresentar sinal de vida quando caí num choro convulso. 
                  Naquela altura ainda não sabíamos que o jarro havia matado uma criança, 
                  mas sabíamos pelo ruído que vinha do térreo que alguma coisa grave tinha 
                  acontecido. Com poucas palavras ele soube me trazer a calma de volta. 
                  Apresentava-se como prova viva e verdadeira de minha inocência. Um 
                  acidente. Um acidente. Repetia enquanto me amparava pelos ombros. E 
                  assim a história foi concluída. Um triste acidente, uma triste coincidência a 
                  desse menino estar passando diante de um prédio alto, numa noite de 
                  ventania, no momento exato em que um jarro despencava. 

                  Nunca mais voltamos a falar no que aconteceu nem um com o outro, e tenho 
                  certeza também pela parte dele, com ninguém mais. 

                  Essa história se passou há muito tempo e talvez vocês se perguntem o por 
                  quê eu a estar revelando agora e nessa circunstância. 

                  O que eu queria aqui, na verdade, era revelar essa culpa que eu carrego, no 
                  momento em que se enterra a prova de minha inocência. Ao dizer isso 
                  percebo que poderia dizer exatamente o contrário. Revelo minha inocência no 
                  momento em que é enterrada a minha culpa. Como se elas, culpa e inocência 
                  não fossem o contrário uma da outra mas faces diferentes de uma única 
                  coisa. 

                  Não sei porque mistério o silêncio definitivo do nosso amigo - silêncio 
                  guardado a vida inteira - me fez falar. Talvez se deva a que antes eu não 
                  estava só e o sentido de minhas palavras seja o de querer não estar só, a 
                  partir de agora. 

                  Era o que eu tinha a dizer. 

                  Aproximamo-nos dele e foi num abraço conjunto, juntando todos nós que 
                  assistimos a descida à terra do caixão do nosso amigo. 

 in Diário de Pernambuco, 08/07/99

 

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