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Contos Nordestinos
José Almino
Autor do roteiro do filme Bella Donna, que se tornou polêmico em todo o País, José Almino nasceu no Recife, passou parte significativa de sua vida em Pernambuco e na Argélia, aonde foi em companhia do pai, governador Miguel Arraes, durante o exílio.
É PHD, em Economia, pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Trabalhou na ONU e atualmente é Diretor Científico da Fundação Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Publicou dois livros de poesia - De Viva Voz e Maneira de Dizer, onde revela sua preocupação com o Recife. Na área da ficção tem mais dois livros publicados: O Motor da Luz e Baixo Gávea, que integra a coleção da Secretaria de Cultura, do Rio de Janeiro, que aborda personalidades e regiões da capital carioca. Para escrever O Motor da Luz, recebeu bolsa da Fundação Vitae, de São Paulo. Traduziu e adaptou O Burguês Ridículo, de Molière, que obteve grande repercussão na Imprensa brasileira, depois de encenada por grupo do Rio de Janeiro. Tem contos e poemas publicados em diversas revistasde todo o País. A peça foi, recentemente, publicada pela Editora Sette Letras do Rio de Janeiro, enquanto o livro de poemas Maneira de Dizer tem edição da Brasiliense, de São Paulo, para o público nos próximos meses.
José Almino
"Eu não enjeito, serviço pesado", o camarada me dizia. E explicava que não era do esforço que tinha medo, mas da impossibilidade da tarefa. Da vertigem do entrevisto, o receio da queda antes do objetivo conquistado, o medo da mudança de ares e das circunstâncias.
Nem tudo são metáforas. Mas tudo, mesmo na sua complexa inteireza, nos deixa
um laivo, um risco, um traço de inacabado. Qualquer poeta ou metafísico de
esquina poderá nos descrever tal fenômeno. Mas nunca poderá explicar no exato
frescor na sua verdadeira atualidade, por exemplo, o gosto rascante da cajuada
ou a súbita alegria trazida por um telefonema do amor tão ansiosamente esperado.
São a tarefas assim, imprevistas e impossíveis, que o devotam-se os empreendimentos
literários bem executados. Servicinho pesado, o da escrita! Como encontrar
um rumo plausível de narrativa? Em vão, vivo a catar nos papéis pedaços de
poesia, o fragor de velhas batalhas, o brilho de antigos amores que me ajudariam
a seguir aprendendo e vivendo, nesta ordem, que é a da minha preferência.
Em vão, procuro ouvir e apurar meu sotaque, ajustando-o à escrita, que este
é um muito útil conselho oferecido pelo poeta pernambucano João Cabral de
Melo Neto.
"Words, words, "; e mais,
"sangue, suor e lágrimas, "chuva, suor e cerveja".
Quedo-me a cismar que sou apenas um homem de muitas voltas. Vez por outra
venho parar no mesmo lugar, por falta de orientação. E logo, algo dentro de
mim, sugere:
"também por gosto".
"Não, não me agradam necessariamente
os paradoxos. Desgosto deles, não os entendo. A vida já é muito complicada
e deveria ser tornada clara, fácil como um gibi antigo, em que já conhecemos
as tramóias, pulamos por cima delas e vamos direto as alegrias através de
diálogos singelos. Isto, obviamente, na teoria; e a teoria, na prática, é
outra, insistia em dizer o camarada Mao Tse Tung.
Assim, marcamos tempo, acumulamos
dores, ficamos paralisados pelos sem-número juízos e apreciações, até que
surja alguma coisa a que eu não posso dizer de dar o nome de milagre. Sem
ele, o que se passa renitentemente comigo? Mal esboço um princípio de entusiasmo,
um doce enlevo, e começa, dentro de mim o obrar de uma sombra, da acidez do
desencanto, enfim, o oco da cacimba já mencionada. E o ecode tédios passados,
dos frequentes desencontros que soprando-me aos ouvidos "Vale a pena?
in Diário de Pernambuco, 08/10/98
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