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Do Outro Lado do Muro
Com Alexandre Frota
Baseado em entrevista a João Henrique Schiller
Editora Caras

Entrevista de três horas e meia no paradisíaco Arraial do Cabo, RJ:

 

Tempo de trabalho da entrevista ao ponto final.
Início: 07/01/2002
Término: 20/01/2002
Local: Rio de Janeiro

Segue abaixo alguns trechos do livro



Era agosto de 2001 e eu estava fazendo o ensaio para a revista G Magazine que imaginava ser o último trabalho do ano. Recebi um dos maiores cachês da história da revista e aconteceram fatos agregados a isso, que me proporcionou uma situação financeira confortável, a ponto de já ter decidido estar aqui, hoje, neste lugar maravilhoso na companhia de meus amigos, do sol e da praia. As fotos foram um sucesso. Irreverentes, ousadas e até escandalosas, na opinião de alguns. O mais importante foi o barulho que esse ensaio causou na mídia. Fotografei com outros homens nus, travestis e garotas de programas, parecia a rua Augusta, bem gueto, esquina, noite, realidade... Não houve meio termo: ou adoraram ou odiaram, mas o importante é que repercutiu muito e essa é a idéia de um trabalho artístico. Participei como convidado de quase todos os programas de tv, muitos deles no SBT.


 

Eu só não me preocupei em saber quem eram os outros competidores, até porque fazia parte do contrato, só que não foi assim com todo mundo. O Taiguara, por exemplo, a advogada do SBT deu um mole e ele levantou os papeis em cima da mesa e leu alguns nomes contratados. Já outros conversaram entre si e ficaram sabendo de algumas pessoas. Eu, fui o único que fiz questão de ir ao SBT e não cruzar com ninguém.


 

Acordei no dia vinte e oito supertenso, excitado e ao mesmo tempo com o coração partido por estar deixando minha vida para trás. Eu adoro viver! Jornal, Tele-jornal, Fm, liberdade, praia, relógio, minha mulher... gosto do trânsito... e pô! Eu estava indo para um lugar que... Deus me livre! Às onze horas fiz um churrasco para uns amigos à beira da piscina com a Dani. À uma hora da tarde tomei meu “último banho” e parecia que eu estava indo pelo corredor da morte.



Imediatamente começamos a planejar nossa estratégia de jogo.
Como faríamos para derrubar as mulheres, é claro!
Nosso objetivo naquele primeiro papo era ficarmos só os homens.



O Supla é muito amigo de um grande amigo meu, o Fábio Bope, a gente se falava pouco, muito pouco e o interessante e esquisito é que tivemos a mesma impressão um do outro: _ Ih! Porra meu irmão! Eu vou me estressar com esse cara. Era o Bad Boy e o Punk maluco se estranhando já nos pensamentos. A produção estava superfeliz de ter conseguido colocar pessoas com características totalmente contrárias. Essa era a idéia deles. Foi aí, quando virei de costas, ele voltou a me chamar pelo nome e disse: _ Ô Frota! Tenha certeza de uma coisa: vocês não vão andar depois deste programa, nas ruas... Essa foi a frase do Silvio Santos que me marcou mais.



Nessa hora passou pela minha cabeça o que a Dani estava pensando em casa de ver a Núbia de cara comigo. Só que fiquei tranqüilo, porque a Dani é uma mulher super resolvida e confia em mim.



E a produção agindo na base do terror: _ Tá todo mundo aqui? _ Espera, não pode tirar a venda ainda não? _ Espera, mais dois minutos... _ Ainda não, calma aí. _ Já está todo mundo aqui? Pode fechar a porta? Eu fiquei completamente pirado! Foi uma tortura. Eles foram levando a gente ainda com vendas até os fundos da casa. Quando nos desvendaram, foi mais um choque: uma luz forte branca dentro dos olhos, tipo interrogatório de filme americano. Depois de uns segundos, acostumamos com a luz e percebemos que estávamos na parte externa, nos fundos da casa, ao lado da churrasqueira e com a porta pra rua já devidamente trancada.



Entrei, subi as escadas, corri pelo corredor e fui direto para o quarto verde, que era dos homens e peguei a primeira cama, logo de cara. O Marco veio na minha e mandei ele ficar na cama ao lado. Pronto já consegui estabelecer um secretário pra mim, o Marco.



Eu, de vez em quando, olhava pro céu e tentava dizer que horas eram: _ Pô! Deve ser umas três e quinze... A produção olhava para o relógio e eram três horas e vinte e cinco minutos. _ Puta que pariu, cara! Como é que o Frota acerta tanto?



_ Se tivesse que tirar, eu escolheria o Marco Mastronelli, Silvio. por causa desse cabelo ridículo dele, amarelo, parecendo o Rod Stwart... Eu tiraria o Marco. O Marco já ficou puto comigo nessa hora, também não era pra menos, só eu sabia que era uma brincadeira, aos 25 minutos...


Sou autêntico a rodo. Ou você gosta ou não gosta de mim. Sou cigano. Posso sofrer se tiver que sair daqui agora com alguém. Mas se for preciso, vou sair. Se tiver que ir definitivamente pra Cuba, vou. Sofrimento total nos dois primeiros dias, mas depois: sou Cuba desde criancinha. 100% Cubano. E acabou! Uma coisa que eu sempre falo e se encaixa aqui é o seguinte: “Já que estamos no inferno, vamos abraçar o Diabo”.



O Treta Show, apresentado por mim e pelo Supla, foi um sucesso de gargalhadas. Pra quem não sabe, treta é uma gíria que significa: confusão. Era o seguinte: O Leandro Lehart e as pessoas que estavam em volta, falavam nomes e eu e o Supla tínhamos que dar nossas opiniões: mandávamos pesado, descíamos a lenha geral, ou não. Dependia do nome na berlinda. Essas imagens foram vetadas pelo SBT, não tinha como irem ao ar, mas eu posso contar umas, tipo assim: _ Alexandre Frota. O que você acha da Marlene Mattos? _ Marlene Mattos é a reencarnação de Araci de Almeida.



Quem gosta de beleza interior é decorador.



Conversa de malandro não faz curva.



A “ação de acordar” era tenebrosa. Estavam todos deitados e dormindo, no quarto hiper-escuro quando a produção colocava uma música a todo volume, casca grossa, muito alta e diversificada. De Pink Floid a Araketu (checar nomes), passando por Zezé Di Camargo e Luciano, até Mozart, Vando... _ Moçaaaaa!!!! _ mas muito alto de 09H00 às 11H00, duas horas sem parar, sem interrupção, direto no ouvido da gente. E o pior é que ainda tinha gente que não acordava. Era pressão total. Os preguiçosos eram: Núbia Ólive, Patrícia Coelho, Bárbara Paz, Leandro Lehart e Taiguara, que troca a noite por dia, ele vai se deitar às 06H00 da manhã todo dia.



No início, nas primeiras festas, eles colocavam seis garrafas de vinho, mas o Supla e a Bárbara Paz quando bebem se perdem um pouco. Caem um pouco do salto do sapato, entendeu? E aí, em algumas vezes eles tiveram atitudes, ações que não pegaram bem, tipo: quebraram garrafas, jogaram comida no chão, loucuras das cabeças deles que fizeram com que a produção diminuísse a bebida alcoólica. Chegaram a mandar um bilhete pra gente se segurar.



E a Núbia? Ela não era o exemplo de empregada doméstica que quis demonstrar desde o princípio. Ela, pra passar o tempo, pra se ocupar, resolveu liderar o movimento de limpeza dentro da casa, total. Parecia um flat. O Flat dos Artistas, Ela queria colocar todos pra trabalhar, vinte e quatro horas por dia. Começamos então a discutir, eu e a Núbia. _ Núbia! Eu vou fazer essa porra a hora em que eu decidir. A hora que eu quiser.



_ Pô, Frota! Eu tô fechado com a Núbia, vamos fazer o seguinte, velho, tenta ver quem poderia ser nossa segunda opção e vamos deixar a Núbia pelo menos mais umas duas semanas aqui dentro. _ Mateus, a Núbia ficar aqui dentro não é um bom negócio pra gente. Ela vai derrubar todo mundo. Porque ela é aranha. É malandra, vai derrubar todo mundo... E aí o Taiguara também teve uma paixão espiritual platônica por ela, porque era a mulher que dava atenção e conversava com ele. Papo cabeça... Então tive que escalar outra vítima para subir o gás... Vou explicar: usei muito, termos de presidiários que tirei do livro Estação Carandiru e a imprensa até noticiou isso, “subir o gás” é matar alguém, assim como “botar o balão pra subir” (ou botar no balão, checar), “bola da vez”. _ Vamos subir o gás da Alessandra Iscatena, porque tem doze anos de SBT, foi criada dentro do Gugu, é uma forte candidata, vamos abrir.



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