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JOMAR MORAIS SOUTO nasceu em Santa Luzia do Sabugi, Paraíba, em 1935. Em 1961 ganha o Prêmio Augusto dos Anjos com os poemas de Pedra de Espera. Em 1962 escreve Itinerário Lírico da
Cidade de João Pessoa, que já alcançou quatro edições. Em 1980 é publicado pela editora da Universidade Federal da Paraíba seu livro Fazenda de Murmúrios (poemas). Em 1985 ganha um prêmio nacional de poesia no concurso Quarto
Centenário da Paraíba com o "Canto da Capitania Real de Nossa Senhora das Neves". Data, igualmente desse ano, o aparecimento em São paulo do livro Poetas Contemporâneos "antologiados" por Henrique L. Alves, uma
publicação de Roswitha Kempf Editores, volume no qual figura ao lado de eminentes poetas brasileiros, como João Cabral de Melo Neto, Carlos Nejar, Thiago de Melo Neto, Mauro Mota e outros. Em 1986, a Universidade de Brasília edita o
livro País de São Saruê, com todo o roteiro cinematográfico de Vladimir Carvalho e os versos de Jomar Morais Souto, considerações da crítica que vão desde Jean Claude Bernadet a Ariano Suassuna, José Nêumanne Pinto, Ruy Guerra,
Glauber Rocha, Silvie Pierre, esta do Cahiers du Cinéma, de Paris, Anne Head, do Observer de Londres, Leonard Greenwood, do Los Angeles Times. Em 1994 alguns poemas de Jomar aparecem na antologia Nordestinos, editada pela Editorial
Fragmentos de Lisboa. Recentemente lançou o livro AGRARIANAS e outros poemas escolhidos, pela Ars Poetica.

ÁRDUA LUTA
Arrojado não sou,
e a fibra minha
sabe-a o desgaste
que nos sulcos
do tempo retirei, feito procura,
o próximo do certo, a cor sentida
no tênue clarear de minha aurora.
A alfombra não me foi na longa trilha
pedaços repetidos amiúde.
Cuidei de ser na luz o que no escuro
filtrasse em seu sereno o azul topázio
debaixo das estrelas milenares.
Arrojado não sou,
o que doeu nas coisas que adentrei na luta,
pavios que acendi, morrendo a esmo,
foram minando o campo de batalha,
etapa a etapa, século por século.
E os muros que mirei ainda tateio,
voltado para ti, Jerusalém.
Crucificado estou, entre os judeus
de um tempo de detritos e nêutrons,
fabricantes de medo, sanguessugas
da última migalha existente. |
FUGA
O olhar inutilmente faz-se estranho
ao outro olhar na espera ainda desperto.
E vão é o simulacro quando o banho
das lágrimas na face está tão perto
- De que te segue a fuga se tamanho
doer sempre te oculta o campo aberto ?
Envolves-te nas curvas, mas o amanho
de teu prazer é água de deserto.
Apertas nos teus dedos os teus dedos,
e mordes, no teu sestro, a própria boca,
a mesma que retém nossos segredos...
Tu te morres, me morro...E não morremos
nessa enseada assim de areia pouca
e barro muito e sede que sofremos. |
POEMA PARA QUANDO VOCÊ QUISER
Não venha
se sentir que não deve vir.
Mas, se acaso vier,
ao içar as velas do barco,
olhe firme para o vento na empanada
e para o horizonte onde o sol se perde
todas as tardes.
Porque, na verdade, o sol não se perde
quando está se perdendo.
Ele estará no mínimo
(quando se perde)
iluminando o outro lado da terra. |
SONETO PARA UMA NOIVA
De casca de laranja os amarelos
tingindo o seu vestido e escondendo-a
no laranjal distante. Paralelos
os passos vão nos sumos. Uma amêndoa
não, duas amêndoas, sim, seus olhos belos
movendo-se nos longes, ou movendo-os
no verso as minhas mãos que apenas tê-los
quisessem por amparo, incandescendo-os
no frio de uma tarde, quando a chuva
nem me deixasse vê-la inalcançada
(quase perdido o vulto na paisagem
real) sem sombrear mais minha dúvida
de amêndoas, de olhos, nem de nada,
nem mesmo de outro fruto na folhagem. |
SONETO SÓ PARA A SEGUNDA PESSOA
A de ti de quem não sabe a dor do vento
ninando a tarde verde no aqueduto.
A ti que mais amar na noite intento,
tangendo este silêncio em ti escuto
insto que em tí, por nós, no mesmo acento,
liberto e rendo, só por ter-te em tudo
de onde tirar, na flor em que te invento,
essa outra flor do amor que te disputo.
Não só por flutuares, ou que mais
longe um do outro, não nos fiquem bens.
Mas é porque sabendo que te vais,
Eu sei, também, do verde em que te vens
ungida e alegre para nunca mais
arderes, só, no adeus em que me tens. |

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